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Conto as opiniões de vocês sobre a história. Lançarei os capítulos semanalmente.




# 01
Nova escola

Em um dia inesperado, vidas começam a mudar, mesmo que de forma lenta e impercebível.
   
   Nada melhor que começar o dia com um despertador tocando no ouvido. Parece que não acordei mal humorado, visto que tive cabeça pra fazer uma ironia. Tenho certeza que muita pouca gente acordaria com um sorriso de orelha a orelha, quando estão sendo praticamente obrigados a se levantar com um zumbido eletrônico que denota todos os seus deveres diários. A bela frase “Que dia lindo!” está se tornando extinta atualmente, pois tenho certeza que a maioria pensa em outra palavra muito diferente de “lindo” pra definir o seu dia. No meu caso, não sei se será um lindo dia. Nem olhei a janela pra saber. Mas com certeza será curioso.
   O “bip-bip” do despertador me inferia uma única coisa: primeiro dia de aula numa nova escola; início do Ensino Médio. Era isso o que me aguardava ao longo do dia. Não que eu não gostasse, me sentia até ansioso, mas também muito nervoso. Meu coração palpitou mais forte quando me lembrei sobre as possibilidades de hoje. Não quero nem pensar nas piores.
   Minhas mãos, automaticamente como de costume, se lançaram sobre o aparelho retangular na cabeceira da cama. Tateei os dedos nos botões apertando-os a esmo. Só queria que aquela coisa parasse de berrar.
   Quando consegui desligá-lo, acumulei coragem para me levantar. Fiquei sentado na cama, e suspirei satisfeito por ter barrado a preguiça. Diferentemente de quando despertava nos dias anteriores, não havia luz matinal entrando no quarto pela janela, já que ainda era menos de seis da manhã. Somente adentrava uma luz pálida, tonalizando o cômodo de forma crua e fria.
   Essa penumbra fez despontar uma lembrança esquisita em mim. Imagens do estranho sonho, pesadelo, ou seja lá o que tiver sido aquilo, começaram a me perturbar. Um corredor com paredes de barros de tijolos, luzes ofuscantes refletindo no chão, e passos na escuridão. Um pouco bizarro. Melhor categorizá-lo como pesadelo. E sendo um pesadelo, é melhor esquecê-lo.
   Voltei à realidade.
   Era obrigado a dividir meu quarto com minha irmã caçula, esta que ainda adormecia sobre o colchão no chão ao lado da cama, que tinha um benefício de ter além da cama de cima, uma embaixo que entrava e saia lateralmente. Ah, invejo as horas extras de sono da Marcela.
   Tomei cuidado ao pisar sobre o colchão para então, finalmente, pousar meus pés no azulejo frígido. Meu cômodo não era muito grande, e também não era tão bonito. A tinta branca falhava em alguns pontos, deixando manchas de cimento à mostra na parede e no teto. Na verdade, o lugar foi mal pintado, e como se não bastasse, estava descascando. Não era um quarto muito formoso de se ver, mas ainda era o meu quarto.
   Caminhei até a porta de madeira, e entrei no estreito corredor de paredes claras, mais bem conservadas que o cômodo anterior. À direita, no fim do corredor, e no lado oposto, a porta dos fundos. Um pouco antes, a porta do quarto dos meus pais e o banheiro. À esquerda, antes de adentrar na cozinha, havia uma entrada sem porta para a sala no mesmo lado do meu corpo. Fui até o fim do corredor e entrei na cozinha, também sem porta, já acesa. No cômodo de azulejos de tom bege, vi o armário de despensa aberto, uma pia pequena e sem louça graças a minha mãe e a mesa já com o café preparado.
   Na mesa, tomando o café que ela mesma dispôs, estava minha mãe.
- Bom dia, Léo! – disse ela com o habitual sorriso. Sempre admirei minha mãe pelo fato dela, não importando como a vida estivesse, sempre manter aquele sorriso matinal. Parece que nada abala aquela expressão sorridente de manhã cedo. Embora, acho que foi uma solução que encontrou para amenizar a jornada penosa que entraria ao longo do dia.  
- Bom dia, mãe! – respondi.
- Preparado para a escola?
   Ela tinha que perguntar? Eu queria dizer não. Desejava contar todos os meus pensamentos sobre este dia nebuloso, e o quanto eu imaginei sobre o mesmo. Normalmente, quando estou prestes para ir a algum lugar desconhecido, minha mente viaja pelas mil possibilidades que possa me deparar. No caso da escola, fiquei imaginando que tipo de alunos poderia encontrar.
   Quando me dei conta, minha mãe repetiu a pergunta. Passei tempo demais rememorando, e esqueci de falar.
- Ah, acho que sim – respondi num tom vacilante. Pelo menos fui sincero.
- Certo, então vá logo se arrumar. Sabe que daqui até sua nova escola o caminho é longo.
   É, eu sei.
   Fui ao banheiro me aprontar já imaginando que todo santo dia faria uma longa jornada. Só de pensar nisso, a preguiça aumentou. Enquanto tem gente que mora no mesmo quarteirão do colégio, outros residem a quilômetros de distância, tendo de arranjar duas ou mais conduções para chegar ao destino final. É um saco, mas esse grupo de alunos, eu incluso, precisam fazer este sacrifício. O legal é que com o tempo, acostuma, e dá pinta de que somos mais... hum... esforçados.
   Após o banho, vesti minha calça-jeans e minha camisa pólo branca. Me olhei no espelho para conferir se estava bem arrumado. Os cabelos escuros curtos e naturalmente penteados era o que menos me preocupava. Me achei um pouco formal para ir à escola, mas como tiveram um problema com a encomenda dos novos uniformes, permitiram que os alunos calouros usassem roupa comum na primeira semana.
   Assim que voltei à cozinha, minha mãe já estava quase arrumada para ir ao trabalho. Apenas terminava de pentear seus cabelos escuros e lisos. Ela não tinha muita pressa, afinal, a padaria do Seu Valter não era muito distante daqui.
- Léo, já estou indo. Sua tia deve chegar daqui a pouco para levar a Marcela na escola. Não precisa esperar por ela. Sua irmã não terá medo de ficar sozinha em casa, desde que você tranque o portão e a porta.
   Ela me deu um beijo de despedida e se foi.
   Olhei para o relógio e notei que também já estava quase na minha hora. Tomei um café com leite, uma fatia de pão, e terminando, fui pegar minha mochila no quarto. Mas quando estava para carregá-la do cômodo, notei que minha irmã se remexia na cama. Ela provavelmente estava tendo algum pesadelo. Ouvi ela sussurrando alguma coisa, e não entendi direito o que dizia, então resolvi me aproximar. Mas assim que o fiz, ela cessou os murmúrios. Dei de ombros e sai do quarto.
   Retornei a cozinha e conferi dentro da mochila se não estava faltando nada.
   Ok, hora de ir.
   Sai de casa e tranquei a porta como minha mãe disse. Faltava pouco mais de uma hora para minha primeira aula do ano. E o nervosismo só aumentava.

   Enquanto o irmão se afastava de casa, Marcela, uma garota de onze anos, se contorcia desconfortavelmente no leito. Como Léo imaginara, sua irmã mantinha-se imersa em um pesadelo, ou talvez, algo maior. Não parava de murmurar:

Tome cuidado, Léo. Está vindo... Está vindo.

5 comentários:

Yokuo disse...

Hehe, que engraçado. Na nova versão de Ventura, temos a velha introdução do protagonista que acorda e tem um dia peculiar, enquanto que eu tirei esse começo pra nova versão de Elementais depois de anos com esse começo nas versões mais antigas. Justo eu que adoro esse tipo de começo! Hehehe.

Você definiu muito bem o pensamento de um garoto razoavelmente otimista no primeiro dia de aula e acrescentou um pouco de mistério no fim. Um bom começo! Tô vendo que só tende a melhorar!

Luiz dreamhope disse...

Hehe, apesar do começo ser semelhante, nem me veio o Elementais na cabeça, apesar de ter os sonhos misteriosos. Esse enigmatico pesadelo foi criado durante a nova versão. Na verdade, iria introduzi-lo mais à frente, porém, não estou a fim de enrolar com a história, ela será bem mais direta que a versão antiga.
Bom, mais ta aí mais uma daquelas inumeras semelhanças que andavamos comentando antigamente, brother. hehe

Assim como no "Abismo da Escuridão", pretendo deixar aqueles "cliffhanger" misteriosos tambén nesta versão.

Valeu pela leitura, cara. Continue acompanhando. :)

Isie Fernandes disse...

Olá, Luiz, eu aqui de novo...

Cara, não conheço os textos anteriores, que até foram mencionados no primeiro comentário, mas gostei desse aqui. As ideias do personagem, as descrições super reais... Bem legal!

Acho que seria interessante tornar os diálogos um pouco mais habituais, entende?, pra ficar mais parecido com o que a gente fala. Daria ainda mais verossimilhança ao texto, que já está super legal.

Vamos ver o que acontece na sequência. Aguardo as novas postagens! =D

Heluiza Bragança disse...

Oi, Luís! Gostei do reboot e obrigada por me avisar lá no Manuscritos, eu ia demorar alguns posts até ver aquele comentando do site novo e do início de outra série.

Gostei muito mais da narrativa desse, ficou mai sucinta, direta e pessoal. Mais fácil de criar identidade logo no primeiro capítulo.

Ah, não concordo que livros com protagonistas adolescentes atraiam necessariamente jovens, conheço uma galera de velho, inclusive eu, que curte ler livro com protagonista adolescente. Tudo depende da trama e da narrativa, só um toque para tomar cuidado ao divulgar o livro como "voltado para jovens" pois pelo que eu vejo da sua narrativa, ela atrai facilmente adultos e com esse argumento na resenha muitos vão retorcer a cara pensando que vão, então, encontrar um livro c triângulo amoroso de "Malhação".

Só um toque :).

Continuarei lendo e comentando por aqui, até!

Luiz dreamhope disse...

Oi, Heluiza. =) Obrigado por iniciar a leitura de Ventura. Eh, o reboot do Mundo Sombrio vai demorar um pouco, e pra você não se perder fui lá no blog avisar e dar uma lida naquele conto( eu ainda vou ler uma série lá. Em breve vou fazer umas indicações de histórias que existem na net em algumas postagens por aqui. Só espere o Manuscrito andar na fila ;))

Esse toque que você deu é bem certo. Provavelmente pessoas mais velhas também gostarão de ler a história, até porque eu acho o enredo bacana. Algumas partes irão agradar adultos, com certeza, como por exemplo, este prólogo que é voltado para o suspense da trama. Eu indiquei a faixa etária juvenil por causa das semelhanças que os leitores irão descobrir com os personagens(estes que serão narradores). Mas vou reavaliar essa minha indicação, ou vou acabar perdendo alguns leitores por tirarem uma imagem errada do livro.
Valeu pelo toque.
Hehe, caramaba. "Ventura" está há anos-luz de se parecer com "Malhação"