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Um colega me apresentou um livro superinteressante que até então apenas havia ouvido falar (e muito bem por sinal). Trata-se do romance Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Diferentemente das resenhas que escrevo, não me atentarei a alguns aspectos comuns em seres analisados num livro, como escrita, personagens, narração, linguagem; e sim, me focarei no mundo da história e as reflexões que ela suscita, pois, assim que terminei a leitura, senti-me, no mínimo, impressionado e ao mesmo tempo atormentado. Tentarei não soltar spoilers durante minhas impressões; para quem ainda não leu esta obra, talvez fique curioso com os tópicos levantados.
O cenário de Admirável Mundo Novo é distópico (ao contrário de uma utopia, a sociedade vive num mundo opressivo), embora, na verdade, eu o tenha achado parcialmente utópico durante as primeiras páginas. Aliás, para os próprios personagens que vivem neste mundo, eles se acham dentro de uma utopia. Afinal, se você está vivendo dentro de um certo panorama em que você tem a impressão de que tudo está dando certo, tem-se a impressão de estar vivendo uma boa vida; mas isso até alguém se manifestar e começar a apontar os erros de tal panorama — mesmo que não seja garantido que você conseguirá aperceber esses “ultrajes” contra sua utopia. Houve sim, de minha parte, uma admiração por aquele mundo (o título do livro faz muito sentido, tanto por meio do leitor como do personagem Selvagem que, vivendo numa reserva onde ainda é preservada a espécime humana “não-civilizada”, idealiza a respeito do mundo além das reservas.). Mas lentamente fui apercebendo alguns aspectos bastante bizarros — sim, não encontrei outra palavra melhor se eu quisesse tomar como referencial a sociedade atual em relação à sociedade fictícia mostrada no livro.
Apenas para ilustrar uma dessas bizarrices, imagine um casal infantil de oito ou nove anos se divertindo juntos com brinquedos eróticos. Algo bem diferente, não? Aliás, a educação sexual na Londres futurística apresentada no livro gera uma sociedade muito diversa da nossa. Homens e mulheres não se casam, talvez eles nem mesmo saibam o que venha a ser isso. A palavra “amor” é extinta, ou seja, aquele calor que você sente dentro do peito em relação a uma pessoa é um sentimento inexistente, pelo menos em sua plenitude. O casal apenas se diverte praticando esportes, indo a cinemas sensíveis (um cinema também diferente do nosso), dançando, e fazendo sexo. Devo salientar que a promiscuidade é bastante comum. Se o homem ou a mulher fica bastante tempo com um parceiro, isso é visto como um ato antissocial. Não há paixão, não há amor, há simplesmente prazer e “sociabilidade”. Quanto mais parceiros você tiver, mais social você se parecerá. Num mundo como o nosso, uma mulher desse tipo seria vista como uma prostituta, mas neste “Admirável Mundo” ela é tida como alguém de boa fama.
 Se estiverem se perguntando onde estão os pais e as mães destas pessoas, eles não existem. Isso mesmo! Não há pais, mães, nem irmãos, muito menos o que se poderia dizer de família. As pessoas vivem sem ter o mínimo conhecimento do sentimento tão comum que nos envolve quando estamos com nossos parentes, este sentimento de afeto que nos une aos nossos familiares é inexistente em Admirável Mundo Novo. O que existe é uma rotina diária pré-determinada em que você se relaciona com os demais membros da sociedade: vai ao trabalho, se diverte, e volta para casa unicamente para dormir. Não há espaço para pessoas antissociais e que gostam de ficar sozinhos. Por Ford! (expressão comumente usado na história que faz alusão a Henry Ford, e que equivale ao nosso “Por Deus!”), ser solitário é uma doença, a solidão é uma doença e completamente bizarra para tal sociedade.
E se por algum acaso, a pessoa estiver triste ou aborrecida ela pode contar com o “soma”, uma droga que anula qualquer tipo de sofrimento. Em outras palavras, a pessoa vive para ser feliz e, quando a vida real tenta quebrar essa felicidade, ela pode recorrer a essa droga para que tudo retorne à normalidade. As doses diárias de “soma” não devem, de maneira alguma, serem abolidas, pois é imprescindível à felicidade do indivíduo.
O indivíduo, aliás, não tem nada de indivíduo. Ele perde completamente sua individualidade para o Estado, que é quem realmente controla essa sociedade de todas as maneiras. Não há violência, rebeliões, assassinatos, ou qualquer outra coisa que possa perpetrar a paz que este mundo oferece. O próprio Estado também é quem cria os seres humanos, pois como já ressaltei, eles não tem pais ou mães, nascem a partir de um processo de fecundação.
Bom, eu sou terrível em Biologia, minhas notas nessa matéria nunca foram boas (já cheguei ao extremo de dizer numa prova que galinha era ruminante, rsrs), então farei uma análise por alto sobre como se dá esse processo para gerar os seres humanos. As pessoas nascem artificialmente e são condicionadas, ou seja, elas nascem para ser um determinado tipo de pessoa e apenas aquele tipo de pessoa. Por isso, elas fazem unicamente o que foram condicionadas a fazer. A sociedade é dividida em castas, sendo a Alfa a mais inteligente e a mais privilegiada, e os Ípsilons, os mais subalternos. Um ponto interessante é que os Alfas odeiam a sensação de cogitar a possibilidade de terem nascidos como Ípsilons, e estes, por sua vez, não invejam os Alfas, pois se sentem confortáveis na posição menos privilegiada da sociedade: são felizes com o que fazem, com suas horas de trabalho para que no final delas recebam suas doses de “soma”. O fato é que todas as castas reconhecem o seu lugar, e devem ficar assim, para a conveniência do Estado que tem toda a sociedade da maneira que quer, como seus prisioneiros. Mas estes, por sua vez, se consideram felizes. É engraçado, eu falei em distopia no início. Para nós o livro parece ser completamente distópico, mas para eles, o lugar onde vivem é uma utopia.
Um detalhe importante que vale ser refletido no livro é a expurgação da arte. Não há arte! Você não veria quadros como Monalisa ou leria romances de Shakespeare. Os livros nessa Londres são essencialmente teóricos, desprovidos de qualquer elemento que possa suscitar algum sentimento que desnorteie aquela sociedade perfeita. Nisso, nem a Bíblia escapou.
A beleza também é uma preocupação freqüente entre eles, principalmente nas mulheres, que sempre procuram estar bonitas para agradar aos homens. O corpo deve ser sempre esbelto, sem rugas, sem qualquer deformação. E a velhice, bom, eles também não ficam senis, graças aos maravilhosos produtos biológicos que tal sociedade dispõe.
O consumismo também é muito presente. O Estado apenas mantém o que consome. Por exemplo, os esportes praticados pela população são sempre custosos, pois necessitam de utensílios dispendiosos; todos os outros esportes que não dispunham de caros equipamentos foram extintos.
 Enfim, é um livro muito interessante e um grande clássico com certeza. Seguindo essa mesma temática, após sondar acerca da obra, descobri outros livros que parecem ser bem legais. Coloquei na minha lista: Laranja Mecânica (Anthony Burgess), 1984 (George Orwell), e Fahrenheit 451(Ray Bradbury).

Curtam também duas músicas que fazem alusão ao romance de Aldous Huxley.

The Strokes - Soma (essa eu já tinha ouvido anos atrás, e curtia bastante. Agora mais ainda XD)



Iron Maiden - Brave New World (percebam que a capa do CD é a Londres retratada no livro).

3 comentários:

Srta Plens disse...

Nossa Luiz, esse livro parece bastante com um outro que eu li, O Doador. Mas pelo quie enfrentei de perguntas mentais em O Doador, eu não vou nem querer pensar em Admirável Mundo Novo(a não ser, é claro, que eu ache ele em uma biblioteca).
Mas valeu pela dica

Luiz Teodosio disse...

Ler "Admirável Mundo Novo" é como ir ao cinema ver Matrix ou Inception, bem mais até, hehe. Não é uma leitura difícil(dependendo do que voce interprete), é tipo mesmo mergulhar num mundo novo.
Vou dar uma procurada nesse O Doador. Valeu também por essa dica, e obrigado pelo coment. ^^

eu disse...

leia: "O Vendedor de Sonhos"
Livro certamente incrível!