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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Onde estão os leitores? "Literatura em perigo"— parte 03


Certo dia vi minha irmã lendo um livro que não havia na minha estante. Aproximei-me e perguntei o que ela estava lendo. Recebi em resposta algo parecido como “um livro aí chato que a professora mandou ler pro bimestre”. Resolvi então averiguar o título da obra, e, para a minha surpresa, me deparo com A Mão e a Luva de Machado de Assis. De imediato, meneei a cabeça negativamente em lamento. Não estou querendo dizer que uma jovem de 13 anos não deva ler Machado de Assis; se ela tiver gosto pela leitura, e se esta agradar-lhe, tem mais é que ler mesmo, porém, isso não se aplica, de maneira geral, ao contexto escolar pelos seguintes motivos:

1) É raro encontrar uma turma do ensino fundamental, seja ela de escola particular ou pública, em que pelo menos metade dos alunos aprecie o ato de ler. A classe da minha irmã se enquadra nesse perfil, pois quando semanas depois, perguntei quantos alunos haviam realmente lido o livro, ela me respondeu “no máximo, três”, e isto numa turma de trinta e poucos estudantes. Ora, não precisamos ser gênios para saber o que os demais alunos fizeram: acessaram um “resumo.com” da vida e procuraram tudo a respeito do livro, e claro, ligaram o modo “decoreba” em suas mentes para arrematar o trabalho. Se bem que no caso da minha irmã, não foi trabalho coisa nenhuma, e sim aquelas provas de interpretação sobre a história e os personagens que qualquer resumo puxado da internet dá conta — confesso que já fiz muito isso e não me arrependo nenhum um pouco. No final de tudo, independente do aluno ter tirado uma nota alta, seja em prova ou trabalho, se ele não leu de fato o livro, a aula de literatura foi uma falha drástica que só serviu para encher o tempo do professor; muito pior para os alunos, que nem irão se lembrar de mais nada da obra no ano seguinte e continuarão estagnados como leitores (ou não-leitores).

2) Tirando a condição de que a maior parte da classe goste de ler e não sinta dificuldade ao se deparar com termos em desusos na língua, como os professores acham que os alunos que nem mesmo gostam de ler um livro com uma linguagem mais objetiva e moderna terão ânimo para encarar uma obra dessas? Num mundo tecnológico como o nosso já é complicado um livro brigar com video-games e internet, atividades que atraem a atenção com muita facilidade. O que dizer então de uma obra antiga que cada vez mais se afasta do estilo de vida do leitor moderno? Saliento que não estou pregando uma extinção de livros de autores renomados da nossa literatura, sugiro apenas que se analise caso a caso um ambiente de uma aula de literatura ao invés de usar um cronograma estereotipado que pouco ajuda na construção do aluno.
3) Por que não apostar numa literatura atual? Cada vez mais as editoras têm aberto as portas para novos escritores, e me refiro especificamente a literatura de entretenimento cujos livros são apedrejados pelos críticos mais intelectuais por não os acharem dignos de leitura. Modéstia à parte, esse argumento é uma grande idiotice. Mas prefiro não caminhar muito pelo assunto antes que essa postagem tome outros rumos. O fato é que a literatura de massa possui um papel muito importante na formação do leitor, e este, conforme vai aderindo ao gosto de ler, por conta própria, sem precisar obrigá-lo, partirá com muito gosto para a leitura de livros mais refinados.
4) Essa “obrigação” de ler determinados livros sempre me incomodou. O aluno já vai iniciar a leitura do livro (isso se pelo menos começar a lê-lo) com o fardo de que ele PRECISA ler aquele bolo de páginas para ganhar uma nota. Sinceramente, não consigo ver liberdade nenhuma nesse caso. Eu nunca gostei muito desse método do professor adotar um livro X. E se um dos alunos quiser ler e discutir um livro Y, ele não pode? Ademais, a disposição de livros passíveis a serem usados numa sala de aula é resumida exclusivamente aos autores clássicos. O que eu acho um equívoco, pois um aluno, como leitor, tem o direito de trabalhar o livro que quiser, seja de um Harry Potter a um Dom Casmurro. Acho que essa liberdade do aluno seria um ótimo adendo para incrementar e reforçar a atual metodologia das aulas literárias.
Poderia desdobrar outros motivos além dos que elucidei acima, mas provavelmente já é o bastante para perceberem, a meu ver, alguns pontos falhos numa aula de literatura. Resumindo tudo, se não se criou uma cultura de leitura dentro do aluno, então a aula já falhou em sua essência.
Indo agora especificamente a falar do Ensino Médio, embora a adoção de determinados livros seja uma falha muito maior no Fundamental, os alunos ainda continuam a não ter um pensamento crítico necessário para entender certas obras como, por exemplo, O Alienista; digo isso em casos gerais, pois na época em que estudei, vi tantos comentários admiradores da obra quanto os mais desgostosos.

Mas sejamos sinceros, os alunos não vêem outra finalidade de estudar as obras clássicas se não o de passar no vestibular. Deveríamos elogiar as obras clássicas, mas estamos fazendo justamente o contrário, estamos apenas definindo-os como livros que PRECISAMOS ler para passar no vestibular. É inacreditável como certos intelectuais não conseguem perceber esse erro! Obras que deveriam ser vistas com respeito estão recebendo uma infâmia de leitores (ou não-leitores) supostamente ignorantes, sendo que os ignorantes são, na verdade, aqueles que chamam os primeiros de ignorantes. O aluno não tem culpa se não conseguiu sorver o valor de uma obra importante, afinal, ninguém o ensinou a ler com prazer. Sem falar no fato de que alguns livros clássicos definitivamente não são para adolescentes.  
Bom, quando esses intelectuais saírem de suas torres de marfim, vierem para o mundo de fora e passarem a incentivar a leitura de livros (e não de alguns livros), quem sabe possamos reverter um pouco o cenário de escassa leitura no Brasil.  Eles verão um Morpheus na frente deles dizendo: “Bem-vindo ao deserto do mundo real”.
Na próxima postagem pretendo encerrar de vez esse assunto aventando algumas maneiras de incentivo à leitura.
P.S: Minha irmã tomou gosto pela leitura graças ao meu insistente incentivo, embora ela ainda prefira gastar mais tempo jogando video-game. Pelo menos as notas de Português subiram e a escrita melhorou muito. 

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Jornada de um escritor - Capítulo 5



Olá, pessoal. 

Já saiu o quinto capítulo da Jornada de um Escritor, a coluna da FANTÁSTICA onde vocês acompanham as dúvidas que surgem durante a escrita do meu livro. Neste capítulo, intitulado A Hora da Pesquisa, vamos saber as opiniões de autores a respeito da importância da pesquisa na criação de um livro. 

Participações: Nikelen Witter (da Coluna Indo à Fonte); Ana Paula Bergamasco (autora de Apátrida); José Roberto Vieira (autor de O Baronato de Shoah); Fernando Heinrich (da Coluna Dicas Fantásticas - 1º temporada).