Certo
dia vi minha irmã lendo um livro que não havia na minha estante. Aproximei-me e
perguntei o que ela estava lendo. Recebi em resposta algo parecido como “um
livro aí chato que a professora mandou ler pro bimestre”. Resolvi então
averiguar o título da obra, e, para a minha surpresa, me deparo com A Mão e a Luva de Machado de Assis. De
imediato, meneei a cabeça negativamente em lamento. Não estou
querendo dizer que uma jovem de 13 anos não deva ler Machado de Assis; se ela
tiver gosto pela leitura, e se esta agradar-lhe, tem mais é que ler mesmo,
porém, isso não se aplica, de maneira geral, ao contexto escolar pelos
seguintes motivos:
1) É
raro encontrar uma turma do ensino fundamental, seja ela de escola particular
ou pública, em que pelo menos metade dos alunos aprecie o ato de ler. A classe
da minha irmã se enquadra nesse perfil, pois quando semanas depois, perguntei
quantos alunos haviam realmente lido o livro, ela me respondeu “no máximo,
três”, e isto numa turma de trinta e poucos estudantes. Ora, não precisamos ser
gênios para saber o que os demais alunos fizeram: acessaram um “resumo.com” da
vida e procuraram tudo a respeito do livro, e claro, ligaram o modo “decoreba” em
suas mentes para arrematar o trabalho. Se bem que no caso da minha irmã, não
foi trabalho coisa nenhuma, e sim aquelas provas de interpretação sobre a
história e os personagens que qualquer resumo puxado da internet dá conta —
confesso que já fiz muito isso e não me arrependo nenhum um pouco. No final de
tudo, independente do aluno ter tirado uma nota alta, seja em prova ou
trabalho, se ele não leu de fato o livro, a aula de literatura foi uma falha
drástica que só serviu para encher o tempo do professor; muito pior para os
alunos, que nem irão se lembrar de mais nada da obra no ano seguinte e
continuarão estagnados como leitores (ou não-leitores).
2) Tirando
a condição de que a maior parte da classe goste de ler e não sinta dificuldade ao
se deparar com termos em desusos na língua, como os professores acham que os
alunos que nem mesmo gostam de ler um livro com uma linguagem mais objetiva e
moderna terão ânimo para encarar uma obra dessas? Num mundo tecnológico como o
nosso já é complicado um livro brigar com video-games e internet, atividades
que atraem a atenção com muita facilidade. O que dizer então de uma obra antiga
que cada vez mais se afasta do estilo de vida do leitor moderno? Saliento que
não estou pregando uma extinção de livros de autores renomados da nossa
literatura, sugiro apenas que se analise caso a caso um ambiente de uma aula de
literatura ao invés de usar um cronograma estereotipado que pouco ajuda na
construção do aluno.
3) Por
que não apostar numa literatura atual? Cada vez mais as editoras têm aberto as
portas para novos escritores, e me refiro especificamente a literatura de
entretenimento cujos livros são apedrejados pelos críticos mais intelectuais
por não os acharem dignos de leitura. Modéstia à parte, esse argumento é uma
grande idiotice. Mas prefiro não caminhar muito pelo assunto antes que essa
postagem tome outros rumos. O fato é que a literatura de massa possui um papel
muito importante na formação do leitor, e este, conforme vai aderindo ao gosto
de ler, por conta própria, sem precisar obrigá-lo, partirá com muito gosto para
a leitura de livros mais refinados.
4) Essa
“obrigação” de ler determinados livros sempre me incomodou. O aluno já vai
iniciar a leitura do livro (isso se pelo menos começar a lê-lo) com o fardo de
que ele PRECISA ler aquele bolo de páginas para ganhar uma nota. Sinceramente,
não consigo ver liberdade nenhuma nesse caso. Eu nunca gostei muito desse
método do professor adotar um livro X. E se um dos alunos quiser ler e discutir
um livro Y, ele não pode? Ademais, a disposição de livros passíveis a serem
usados numa sala de aula é resumida exclusivamente aos autores clássicos. O que
eu acho um equívoco, pois um aluno, como leitor, tem o direito de trabalhar o
livro que quiser, seja de um Harry Potter a um Dom Casmurro. Acho que essa
liberdade do aluno seria um ótimo adendo para incrementar e reforçar a atual
metodologia das aulas literárias.
Poderia
desdobrar outros motivos além dos que elucidei acima, mas provavelmente já é o
bastante para perceberem, a meu ver, alguns pontos falhos numa aula de
literatura. Resumindo tudo, se não se criou uma cultura de leitura dentro do
aluno, então a aula já falhou em sua essência.
Indo
agora especificamente a falar do Ensino Médio, embora a adoção de determinados
livros seja uma falha muito maior no Fundamental, os alunos ainda continuam a não
ter um pensamento crítico necessário para entender certas obras como, por
exemplo, O Alienista; digo isso em casos gerais, pois na época em que estudei,
vi tantos comentários admiradores da obra quanto os mais desgostosos.
Mas
sejamos sinceros, os alunos não vêem outra finalidade de estudar as obras
clássicas se não o de passar no vestibular. Deveríamos elogiar as obras
clássicas, mas estamos fazendo justamente o contrário, estamos apenas
definindo-os como livros que PRECISAMOS ler para passar no vestibular. É
inacreditável como certos intelectuais não conseguem perceber esse erro! Obras
que deveriam ser vistas com respeito estão recebendo uma infâmia de leitores (ou
não-leitores) supostamente ignorantes, sendo que os ignorantes são, na verdade,
aqueles que chamam os primeiros de ignorantes. O aluno não tem culpa se não
conseguiu sorver o valor de uma obra importante, afinal, ninguém o ensinou a
ler com prazer. Sem falar no fato de que alguns livros clássicos
definitivamente não são para adolescentes.
Bom,
quando esses intelectuais saírem de suas torres de marfim, vierem para o mundo de
fora e passarem a incentivar a leitura de livros (e não de alguns livros), quem
sabe possamos reverter um pouco o cenário de escassa leitura no Brasil. Eles verão um Morpheus na frente deles dizendo: “Bem-vindo ao deserto do mundo
real”.
Na
próxima postagem pretendo encerrar de vez esse assunto aventando algumas
maneiras de incentivo à leitura.
P.S:
Minha irmã tomou gosto pela leitura graças ao meu insistente incentivo, embora
ela ainda prefira gastar mais tempo jogando video-game. Pelo menos as notas de
Português subiram e a escrita melhorou muito.

