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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Onde estão os leitores? "Literatura em perigo" - parte 02




Ainda me recordo dos livros que li “por obrigação” no Ensino Fundamental e Médio. É natural na metodologia escolar incorporar leituras obrigatórias ao aluno e depois mandá-lo fazer um trabalho sobre o livro ou, muito pior, responder questões de interpretação na prova — neste último caso, pode ocorrer, por mais inacreditável que possa parecer, que o aluno precise discorrer do ponto de vista do professor, como se a literatura não desse uma pluralidade de interpretações possíveis de um texto. Confesso que fico arrepiado só de pensar que já fiz parte desse cenário, que sofri nas mãos de um sistema tão debilitado e ditador. Em se tratando do meu “eu” leitor, quando comparo quem sou hoje com o garoto daquela época, me vejo agora completamente liberto. “Nossa, como sou diferente agora”, é o que digo a mim mesmo ao encarar o Luiz de anos atrás. Eu ainda não irei apontar como se deu essa mudança, mas permitam-me esmiuçar alguns dos impropérios que me enjaularam e açoitaram o leitor dentro de mim por um longo tempo e me fizeram ver a literatura como um grande ogro ao invés de um belo elfo.
Eu fico me perguntando qual seria o verdadeiro objetivo de uma aula de literatura. É provável que eu não seja um professor dessa área, então posso acabar falando algo ingênuo, mas baseio minhas impressões do ponto de vista de um leitor/aluno preocupado com a formação de leitores. Em minha opinião, a visão mais acertada seria criar esse objetivo conforme o âmbito, ou seja, tudo depende dos alunos; essa é a primeira análise de um professor de literatura: antes de olhar para a disciplina, olhar para seus próprios estudantes e procurar traçar o perfil de leitor de cada um deles. Nada como um bate-papo para averiguar as preferências literárias de cada um, embora não seja raro de encontrar alunos que nunca se deram bem com os livros. Baseando-se nessa pesquisa, o professor pode indicar livros que se encaixem em determinados perfis, o que significa dizer que o professor deve procurar conhecer os mais variados tipos de obras; ele é professor de Literatura, afinal. Talvez seja um pouco deste interesse do professor pelos alunos que esteja carente no ensino, em outras palavras, incentivo a leitura, nada mais. Não importa que tipo de livro o aluno goste, desde que goste de lê-lo; é salutar que não se faça a imbecilidade de dizer que é perda de tempo ler tal livro e que o aluno deveria ler outro: se a garota se interessou por romances de chick-lit, que ela leia chick-lit; se o garoto se interessou por fantasia medieval, que ele leia fantasia medieval. Juro que até hoje não compreendi essa “perda de tempo” que alguns leitores mais intelectuais e críticos pregam na literatura. Quem manda na vida do leitor não é ninguém além do próprio leitor.


Mas, por enquanto, vamos deixar um pouco de lado essa parte do incentivo a leitura e nos ater no que é ensinada e na forma como é ensinada a Literatura.
Começaremos pelo Ensino Fundamental em que muitas das vezes nem existe uma disciplina chamada Literatura, sendo esta ensinada na aula de português, que por sua vez, mostra-se como uma salada de matérias: gramática, literatura, produção de texto e se sabe lá mais o que. Coitado do professor que possui tão pouco tempo para administrar uma gama de assuntos tão diversificados. Geralmente o ensino é mais focado na gramática, que também sofre do mesmo problema da literatura: não é ensinada de uma forma atraente aos alunos. Eu mesmo estou tendo uma grande surpresa na faculdade de Letras, pois nunca gostei do estudo de literatura e tão pouco da língua; não me perguntem por que estou fazendo faculdade de uma disciplina que odiava na escola. Na verdade, hoje percebo que meu desgosto não era pela disciplina, mas sim a forma como ela era mostrada. E querem saber? É exatamente esse um dos motivos de haver tantos “haters” de literatura.
“[…] ao ensinar uma disciplina, a ênfase deve recair sobre a disciplina em si ou sobre seu objeto.” (TODOROV, 2007, p. 26)

Já notaram que para cada disciplina são adotados dois tipos de perspectivas diferentes? Ou se dá destaque na própria disciplina ou no objeto de estudo dessa disciplina. No primeiro panorama, temos a Física: o estudo é voltado para os meios pelos quais avaliamos o objeto, ou seja, fórmulas e fórmulas para se decorar a fim de aplicá-las aos objetos. Em contrapartida, no segundo panorama, temos a História: estudamos os momentos marcantes da História e não as mentalidades econômicas, militares ou religiosas, ou seja, o foco é sempre o objeto e não os meios. Pergunta: em qual desses panoramas encaixa-se a Literatura?… Se você pensou no primeiro, então acertou. No âmbito da literatura temos os instrumentos de estudo (teorias a fim de estudar a disciplina) e o objeto de estudo (a obra), sendo o ensino focado no primeiro item.
É interessante notar que, quando crianças, os alunos são instruídos a se focarem no livro, mas conforme avançamos no currículo escolar, essa perspectiva se inverte e passamos a estudar as teorias por meio das quais estudamos a obra. A atenção moveu-se do objeto para os instrumentos, e isso se configura plenamente no Ensino Médio.
Então pegamos alunos que pouco contato têm com os livros, como é o caso da maioria, e os obrigamos a se inteirar de instrumentos analíticos que certamente não entenderão, além de achá-los indigestos e chatos. Qual a razão de ensiná-lo tudo isso sem antes despertar nele o amor pelo o que estuda? É lógico que as aulas de literatura ficarão entediantes.
As obras deveriam ser estudadas em si antes de categorizadas em movimentos literários e contextos históricos. A avaliação de uma obra a luz destes métodos seria destinada a Ciência da Literatura, o que não diz respeito ao leitor “não-profissional” do Ensino Médio. Para ilustrar esse problema, Caio Meira, que faz a apresentação à edição brasileira do livro de Todorov, cita uma bela imagem de Henry James.

“… a obra literária é um organismo vivo, para que a teoria e a crítica literária formadores dos professores de literatura não matem seu paciente prematuramente no espírito de futuros leitores, ou seja, para que o próprio leitor não morra como leitor, a arte poética e ficcional deve ser apresentada em primeiro lugar em seu estranho poder imprevisto, encantador, emocionante, de forma a criar raízes profundas o suficiente para que nenhum corte analítico ou metodológico venha a podar sua presença criadora, para que nenhuma de suas partes essenciais seja amputada antes que ela aprenda a se mover e nos acompanhe pelos sentidos que damos à vida à medida que vivemos.”

Na próxima parte (talvez sejam quatro ao todo) tentarei explorar um pouco mais as questões introduzidas aqui.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Participação na antologia "Crônicas da Fantasia"


Olá, amigos!


Trago uma maravilhosa notícia. Meu conto, intitulado "O Vendedor de Balinhas", foi selecionado para a antologia Crônicas da Fantasia, da editora Literata e organizado por Cristiano Rosa. Cliquem na figura ao lado para serem direcionados para o site da antologia e confiram os demais participantes. 





segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Resenha - "As Crônicas de Nárnia"



Embora eu tenha uma boa leva de livros deste tipo aqui em casa para ler, não sou muito ágil quando se trata de obras que excedem por volta de 600 páginas, ainda mais quando a fonte é tão pequena que se tem a impressão de que está lendo duas páginas ao invés de uma só. O volume único de As Crônicas de Nárnia é um destes livros, mas felizmente consegui acabá-lo mais cedo que de costume quando se trata de “tijolos literários”. 

Não farei exatamente uma resenha do livro, pois tenho certeza que um bom fã de literatura fantástica já deve ter lido ou anseia muito ler pelo menos um das sete crônicas que compõem a obra, logo irei apenas aventar uma ou outra questão que me saltou a cabeça durante a leitura. Nem irei discutir as alusões bíblicas que permeiam a história, mas para aqueles que queiram se aprofundar um pouco mais no universo de Nárnia, no sentido filosófico, há um livro chamado As Crônicas de Nárnia e a Filosofia, que parece ser concernente a estes assuntos. 

Meu intuito mesmo é destacar a escrita do livro. Para quem conhece estes dois autores(meio difícil não conhecê-los, rsrs), Tolkien e Lewis pertenciam a um grupo de escritores que buscavam trocar ideias e aprimorarem a escrita, e há uma característica em comum nas obras de ambos: descrições que enlevam os nossos sentidos. Os dois são exímios em descrever os elementos da história de maneira que utilizemos nossos sentidos para nos aproximar melhor das sensações dos personagens, embora ache que o Tolkien descreve mais do que devia e o Lewis adora enfatizar as guloseimas — não recomendo ler Nárnia se estiver com fome. Aliás, deixando uma dica para aspirantes a escritores, durante a narração, procurar utilizar os sentidos dos personagens (e isso serve pra mim também, óbvio, rsrs). É aquela coisa do “contar x mostrar”. 

C. S. Lewis possui uma narração tão sedutora que é possível ler vários capítulos de uma só vez. Dificilmente a leitura torna-se enfadonha. E o mais incrível de tudo é que ele não precisa usar vocabulários refinados para dizer que escreve bem, usa, na maioria das vezes, palavras comuns. O texto é encadeado tão magicamente que não tem como não se admirar. 

Por esse motivo, para aqueles que criam mundos fantásticos, Tolkien e Lewis são referências obrigatórias (mesmo que seja um leitor atrasado que nem eu e demore anos para pegá-los).

Agora farei um ranking de minhas crônicas favoritas.

1)             A Última Batalha — Essa foi de tirar o fôlego. Nunca pensei que a história terminaria de tal maneira. A melhor crônica, disparada.
2)             O Leão, A Feiticeira e o Guarda-roupa — Sei que se não tivesse assistido o filme, essa seria minha segunda história favorita, então acho justo colocá-la assim mesmo nessa posição. Como já sabia do que ia acontecer, infelizmente não foi tão divertido.
3)             O Sobrinho do Mago — A gênesis de Nárnia. As aventuras de Polly e Digory foram bem divertidas.
4)             O Cavalo e seu Menino — Foi interessante ter uma história nos tempos em que os quatro reis governavam em Cair Paravel. Pela primeira vez mostrou a Calormânia, onde se passou boa parte da história, e talvez seja por isso que a achei um diferencial das demais crônicas.
5)             A Cadeira de Prata — Essa foi uma aventura meio sombria com direito a gigantes e seres que vivem no lugar mais fundo da terra.
6)             A Viagem do Peregrino da Alvorada — A história teve bons momentos (adorei a parte do Eustáquio e o dragão), mas não me agradou muito a grande variedade de aventuras que parecia não acabar. Eu prefiro uma história com fatos mais emendados.
7)             Príncipe Caspian — Apesar de se passar numa época bastante opressiva em Nárnia, tão crítica quanto o contexto da Última batalha, não chegou a me cativar tanto.  

O final do livro também conta com um texto muito interessante intitulado Três maneiras de escrever para crianças em que Lewis discorre acerca de questões pertinentes a literatura infantil e ao conto de fadas. Para ser franco, eu simpatizei muito com as ideias do autor e recomendo que procurem adquiri-lo.

“O conto de fadas é acusado de dar as crianças uma falsa impressão do mundo em que vivem. Na minha opinião, porém, nenhum outro tipo de literatura que as crianças poderiam ler lhes daria uma impressão tão verdadeira.”
 C.S.Lewis

Nesse mesmo texto, Lewis também faz referências a dois ótimos autores que trataram de explorar o tema dos contos de fadas: Tolkien e Jung. Embora não os tenha lido, para aqueles que possuem o interesse, sugiro a leitura destes dois livros.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Resenha "Death note — Another Note"



Death Note é um mangá roteirizado por Tsugumi Ōba e ilustrado por Takeshi Obata, serializado entre 2003 e 2006 na revista semanal Shonen Jump; mais tarde ganhou uma adaptação em anime com 37 episódios. Tanto o mangá quanto a versão animada é bem conceituada no universo otaku e teve forte repercussão aqui no Brasil. Particularmente, é um dos meus animes preferidos, um romance policial com toques fantásticos de tirar o fôlego. A história conta a trajetória de um estudante universitário chamado Light Yagami, que encontra um caderno capaz de matar as pessoas, bastando apenas escrever nele seus respectivos nomes mediante o conhecimento do rosto delas. Light usa esse poder para expurgar todos os criminosos do mundo e criar uma era de paz em que ele se tornará um Deus temido e respeitado. Todavia, Light se vê numa batalha psicológica contra um detetive intitulado L, que procura levar Kira(nome que deram ao misterioso indivíduo que assassinava pessoas)  a Justiça.
Daqui em diante contém spoilers sobre a série.
Durante a história, quando L descobre sobre o desaparecimento (ou morte, não lembro muito bem) de Naomi Misora, ele a menciona dentro de um caso no qual ela ajudou a resolvê-lo. É justamente esse caso que trata a história de Death Note: Another Note, centrando-se na investigação engajada por Naomi e L contra o assassino dos bonecos de palha. Embora seja um caso bem anterior ao de Kira, isso não significa dizer que não encontraremos nenhuma relação ao Death Note  ou, mais precisamente, aos Shinigamis; ademais, a história descobrirá alguns pontos interessantes do passado de L no orfanato.
Este livro é uma light novel, um romance de narração geralmente coloquial e objetiva, e com desenhos ao estilo mangá. Another Note, na verdade, não cumpre precisamente esses dois pontos: há apenas desenhos nas entradas dos capítulos e a linguagem é bem madura para combinar com o narrador, que é o Mello. Essa história não foi escrita pelo criador da série original, e sim por NisioisiN, mas Takeshi Obata participou com as ilustrações.
O livro tem uma narração bem culta para fazer jus a um romance policial. Os diálogos também são bem elaborados e requintados, como é de se esperar vindo de personagens como Naomi e L. Embora o desenvolvimento seja um pouco parado devido às longas( às vezes cansativas) deduções( às vezes quase surreais), a cada capítulo o caso ganha contornos mais interessantes e nos sentimos mais curiosos a respeito do final que, diga-se de passagem, é sensacional. Ainda acerca da linguagem, apenas destaco uma refinada e atraente característica na narração: o uso de expressões em latim e termos em inglês provavelmente próprios da profissão investigativa.
Alguns momentos de alívio cômico, por causa do próprio L, atenuam a atmosfera de investigação e garantem o divertimento dos leitores. Obviamente, recomendo a leitura deste livro apenas para os fãs da série, que provavelmente não irão se arrepender — principalmente aqueles que idolatram L (eu prefiro o Kira, rsrs).

domingo, 8 de janeiro de 2012

Metas para 2012

Antes de tudo, terminar o meu livro. Pois é, já estou tempo o bastante nessa jornada e sinto que estou próximo de concluir o primeiro arco desse objetivo (terminar um livro não vai parecer tão difícil depois que tentar publicá-lo e vendê-lo, hehe). Neste ano pretendo colocar o ponto final no Mundo Sombrio, que aliás, muito provavelmente não se chamará mais Mundo Sombrio — já tenho outro título definido, mas deixarei para revelá-lo daqui a algum tempo, rsrs —, e o enviarei a uma editora(mais um assunto de peso para resolver depois). Embora nos anos anteriores eu tenha tido essa mesma finalidade de acabar o primeiro volume da série, este ano estou com uma forte intuição de que finalmente isso se concretizará.

Simultaneamente com a escrita do livro também irei escrever alguns contos para futuras antologias ou então inseri-los para leitura aqui no blog. Até o fim do ano, espero postar algumas histórias para entreter o leitor que vem a este blog e quase nada encontra de ficção. Penso até mesmo em criar contos grandes, divididos em partes e lançados semanalmente — semelhante ao que fazia antigamente com o Mundo Sombrio e Ventura (história que ainda está em hiato).

Resenhas de livros, principalmente nacionais, continuarão sendo postadas. O mesmo vale para postagens sobre animes(que como estão se tornando raras, tentarei reparar com maior freqüência); indicações de leitura; artigos de literatura(ainda finalizarei a continuação de “Onde estão os leitores? Literatura em Perigo” para lançar este mês); e qualquer outra coisa que eu ache interessante passar aos leitores.

Espero dar a devida atenção ao blog, que ficou meio apagado em 2011 se comparado ao ano retrasado.

Desejo a todos um ótimo ano de muitas realizações!
Até a próxima.