Os capítulos agora serão lançados às sextas. Continuem acompanhando e comentando. ;)
# 05
Aversão
Não havia escapatória. Domado por quatro veteranos, o calouro apenas podia sofrer a maior humilhação de sua vida.
- Arranca a mochila dele pra pintar as costas!
Eles tiraram-na e percebi que estavam escrevendo alguma coisa na parte de trás da camisa. Eu cansei de me agitar e deixei-os fazerem o que eles queriam desde o início: me esculachar.
Já me sentia totalmente rendido. Uma sensação de fraqueza e impotência me atingiu exaurindo qualquer combate de minha parte. Eles eram quatro, e eu, apenas um. E além do mais, eu nem era muito forte, não passava de um garoto franzino. Mesmo se fossem só dois garotos, provavelmente ainda me daria mal.
Onde estão aqueles malditos inspetores quando se precisa? Como eles permitem este tipo de brincadeira numa escola deste porte? Os indivíduos que cometem esta atrocidade deviam ser suspensos, ou até mesmo expulsos dependendo do nível da brincadeira que não tem nada de engraçada.
Mas sempre há aqueles que acham graça.
Enquanto era humilhado, vi duas meninas passando, e elas olharam pra mim. Irritei-me profundamente quando uma delas disse sorridentemente: “Ih, olha aquilo”. E logo após, a sua amiga do lado também me olhou. As duas riram, e depois disseram de forma zombada: “Tomando trote”.
Será que ninguém se importa com as pessoas que são obrigadas a abaixar a cabeça para os outros? Será que ninguém procura ajudar estas pessoas? Preferem olhar e não fazer nada como se fosse absolutamente normal? E ainda por cima, rirem? Isso se tornou muito comum no mundo atual. Pelo menos pra algumas pessoas era assim. Aqueles que são desprezados continuarão sendo desprezados, e aqueles que estão por cima tendem a passar por cima dos desprezados. Por que as pessoas gostam tanto de ver esse processo contínuo?
Talvez eu esteja errado. Não eram todos os tipos de pessoas que são assim. Os mais adultos tendem a saber o que é certo e o que é errado. Mas olhando para a maioria desses jovens que vieram de uma educação pouco produtiva e firme, podia ser normal que pensem de um jeito tão ridículo. Aliás, todos os jovens deste tipo são ridículos. Os que estão aplicando o trote em mim fazem parte da pior espécie de jovens ridículos. Como estão sempre rindo, pra mim eles são a piada da sociedade. Pessoas que não contribuem em nada para o seu avanço, ao contrário, a estragam mais do que ela já está.
- Olha só! Achei uma nota de dois na carteira – pronunciou um deles.
Eu desviei meus pensamentos, e notei que um deles estava com uma nota de dois.
- Não pegue meu dinheiro! – gritei para o cara.
- Ih, perdeu filho – Ele então pôs o dinheiro no bolso e me fitou desdenhosamente.
- Não! Me devolva! Esse é o meu único dinheiro pra pegar o ônibus de volta pra casa – falei já me desesperando. Sem aquela cédula eu não poderia voltar. Quem sabe eles sentiriam pena e me devolveriam...
Eles riram.
- Já era, irmão. Da próxima vez, vê se traz mais grana contigo – falou o que terminava de aplicar o trote.
- Bora, bora. Já deu pro gasto – disse o outro.
- Fica ligado mané! – zombou o gorducho, olhando e rindo de mim enquanto se afastava.
Pelo menos, eles finalmente se foram. Aquele inferno havia terminado. Mas acabou me trazendo terríveis conseqüências. Eu estava quase caindo no choro depois disso. Minhas lágrimas queriam sair, mas eu não deixava. Eu os olhava se afastando com meus olhos fuzilando-os de raiva. Eu sentia muito ódio. Por ter sido pintado, por ter sido roubado, por ter sido humilhado, e principalmente por não ter sido forte para impedir.
Eu olhei para a minha camisa e vi o quanto ela foi pintada. Parecia realmente que ela tinha sido tingida de azul. Se a camisa estava assim, não queria nem imaginar a cara. Mas eu podia sentir a tinta na minha face, e sabia que ela estava quase toda coberta. Meus braços também foram alvos. O que quase não apresentava tinta era a minha calça, felizmente. E ainda havia a frase que alguém escreveu na parte de trás da camisa. Eu bem que podia tirá-la pra ver o que estava escrito, mas não estava nem um pouco a fim. Já estava todo esculachado mesmo. Uma frase de escárnio a mais ou a menos não iria mudar nada.
O mais importante no momento seria me lavar, ou pelo menos tentar. Isso aqui nunca sairia só com água. E o pior. Como iria entrar na sala de aula desse jeito? E pior ainda. Como iria pra casa? Será que alguma alma caridosa me emprestaria dois reais? Poderia ser um futuro colega de classe? Ou talvez eu pedisse para o próprio diretor, pois ele é o responsável por não suprimir os trotes. Acho que até pedir esmola no colégio valeria.
Aproveitando que tinha dois – pela roupa – faxineiros passando por perto, perguntei onde eu poderia me lavar.
Mas acabei recebendo risadas como resposta.
- Tem sempre uns trouxa que leva trote – zombou um deles.
- Esse aí bateu o recorde. Parece até a parede recém-pintada lá de casa – eles continuaram rindo.
Fiquei profundamente irritado. Também não podia esperar muito de faxineiros. Apesar de ser uma escola de grande peso, faxineiros ainda são faxineiros. São dois pobres que se contentam com a vidinha medíocre que tem. Eu não posso falar muito, pois também sou um cara pobre. Mas nunca na minha vida me tornaria um faxineiro. Empreguinho mais idiota. Só aqueles que largaram o estudo porque não tiveram o interesse ou porque são bem burros e incapacitados procurariam por um trabalho tão ralé como faxineiro. Daqui a alguns anos serei bem maior que vocês, e terei mais dinheiro que nem mesmo juntando esse salário mixuruca que vocês ganham pela vida toda conseguiriam me alcançar. Realmente, a roupa de faxineiro combina bem com vocês. Bando de idiotas!
- Vocês vão me responder ou vão continuar rindo? – perguntei já bem aborrecido.
- Só lá dentro, garoto. Tem um banheiro masculino à direita no próximo corredor depois daquele – apontou um deles para uma entrada ali perto. Uma escola tão grande como essa, e nem existe um chuveiro ou qualquer coisa que jorre água do lado de fora? Que ridículo!
Eles se afastaram ainda rindo do que apreciaram. Nem senti vontade de agradecer. Dane-se que eles me deram a informação. Eles gostaram de me ver do jeito que estou. Como posso agradecer a miseráveis que riem de uma coisa dessas? Acham engraçados os trotes, não é? É uma pena que eu não possa fazer nada para mudar o conceito de vocês.
Suspirei.
Depois da cena com os faxineiros me sentia ainda mais furioso. E aquele ódio parecia estar guiando meus pensamentos e reflexões. Mas o que me incomodava realmente era que nada podia fazer para fazer os outros provarem desse ódio. Eu quero que eles paguem! Quero que sofram uma punição por atos estúpidos. E aqueles que contemplam, quero que sofram um pouco desta humilhação que é ser desprezado pelos outros como se eu não fosse um nada.
Eu desejo ter poder para que essas injustiças nunca mais ocorram!
De repente, cortando meus pensamentos abomináveis, meus olhos fincaram em algo que acabara de cair na grama. Era um cartão branco e pequeno, escrito em negrito a palavra “Despertar”. Sem entender, olhei o verso e fiquei mais confuso ainda ao ver um número de telefone inscrito.
- Que isso?
Fitei acima os galhos da árvore que me sombreava, e não encontrei nada além de feixes de luz que penetravam através das folhas. Pensei que alguém trepado em algum galho pudesse ter deixado isso cair, mas não havia ninguém lá em cima.
Será que estava preso em algum lugar na árvore e só agora caiu? Mas ainda assim, que tipo de cartão é este? O que é esse “Despertar”?